True Colours #23

Eram muitas as memórias protagonizadas e muitos os momentos ali imortalizados. Sempre que olhava, sentia um arrepio percorrer-lhe as entranhas como se vivenciasse de novo cada instante delicioso do passado. Era fácil perder-se por entre quadros vivos de memórias. Via, com a vontade gigante de voltar a encontrar-se, os corpos em movimento, as roupas lançadas ao acaso, as almofadas caídas, os lençóis revoltos, os lábios colados, as mãos perscrutadoras, o prazer ali depositado. Recordava, com a excitação à flor da pele, o cheiro do sexo que aproveitavam sempre até ao último segundo, a fluidez dos gestos tão naturais, espontâneos e sublimados pela paixão que os consumia, o prazer que a sua entrega lhe proporcionava. Ouvia, como se estivesse ainda lá, as palavras brutas, duras, fortes que lhe toldavam a razão e a faziam ter a certeza que era puta para ele, que fodia só para ele, que era dele sem margem para dúvidas. E, desta vez, ao lançar os olhos pelo local onde jaziam os despojos do que haviam sentido, imaginava-o assim, perfurando-a sem pudor, soltando nela a força dos seus músculos, depositando-lhe, animal e carnal, o prazer que ela queria, o orgasmo tão vívido, tão bom, tão seu, tão deles.

True Colours #21

The purest, the loveliest, the most enduring trouble. She was sweet as a strawberry and yet sour as the sourest lemon. Tart, defying, bold. She was Lolita in her cute ponytails, her heart shaped knickers, her soft skin, her inocent but teasing smile. She was trouble from head to bottom and he knew it as soon as he glanced over his shoulder when crossing the street. And she knew he captured a glimpse of her mischevous endevours. She decided to tease him, make him fall for her, make him beg for her tender body, her small but beatifully shaped breasts, her sweet naughty lips. Barely standing in his own two feet, he couldn't believe he wanted her that much. His heart raced, his mouth watered as if hunger was the problem with his mind. The truth is, he was plain excited to taste her and he could feel it in his body.
She glanced at him, calling him. Hypnotised, he went to her. They talked for a brief moment but he could hardly listen or remember what she said. In his thoughts, they were already sharing their bodies and he imagined it so lively that even he felt he was blushing harder by the minute. With great surprise, she invited him for a walk. He agreed, nervously doubting she could ever want him as he wanted her. Her voice was sweet and young, her face, oh her face, precious in every laughter. Shamefully, beautifully, she took him by the hand and led him to her waist. He knew then what he couldn't believe minutes ago. She was going to be his, he would feel her, kiss her, touch her, make her come as no one had ever made her come and enjoy the pleasure of giving her the greatest pleasure. By the time he got inside her, he was forced to make a reality check. Her innocence was his and yet, she seemed the most mature woman when it comes to sex. He loved her. He knew that when she smiled after an orgasm and hid her face, shy as a young child. Did she love him though? She was trouble. A double trouble...

True Colours #16


"I confess I find more ecstacy in passion than in prayer. Such passion is prayer. I confess I pray still to feel the touch of my lover's lips. His hands upon me, his arms enfolding me... Such surrender has been mine. I confess I pray still to be filled and enflamed. To melt into the dream of us, beyond this troubled place, to where we are not even ourselves."

Veronica Franco in "Dangerous Beauty ou The Honest Courtesan".

True Colours #20



Inman: You are all that keeps me from sliding into some dark place.
Ada: But how did I keep you? We barely knew each other. A few moments.
Inman: A thousand moments. They're like a bag of tiny diamonds glittering in a black heart. Don't matter if they're real or things I made up. The shape of your neck, that's real. You were always carrying a tray.
Ada: You wouldn't come inside.
Inman: I wouldn't come inside.
Ada: I had to carry a tray to come out and see you.
Inman: The way you felt when I pulled you to me. That kiss - which I kissed again everyday of my walking.
Ada: Everyday of my waiting...

In Cold Mountain

True Colours #6

Adultos que somos, aprendemos com a experiência a fazer uma triagem apertada das pessoas que deixamos entrar na nossa vida. Porque já mais que uma vez nos arrependemos, já mais que uma vez nos magoaram, já mais que uma vez demos de nós em troca de quase nada. Adultos que somos, ainda levamos mais a sério a triagem que fazemos das pessoas que deixamos comungar o nosso dia-a-dia e acima de tudo o nosso corpo. A fazê-lo, não estamos para brincadeiras. A não ser que sejam brincadeiras na cama. Risos e gargalhadas, prostrados, cansados, secos ou ainda molhados depois de uma entrega. Sorrisos e cambalhotas numa cumplicidade inesperada e tão perfeita. Aí sim, aí brincamos. E deixamo-nos levar e ficar, queimando o tempo até ao último minuto, aproveitando cada toque, cada beijo, cada olhar.

True Colours #18

A manhã começa já a demonstrar sinais do frio do Outono que se instala paulatinamente nas nossas vidas. Aquecemos o corpo com o corpo que se une, se encaixa em nós e deixamos fugir dele o calor que guardamos no mais íntimo do nosso ser. Por entre um manto cinzento aveludado, sentimos o crescer do desejo em nós. O silêncio impõe-se e obriga a que os gestos sejam solenes e expressivos. Desapareço do teu abraço, escorrego pela tua pele  suave e encontro-te já como gosto de te encontrar. Pronto e expectante do beijo que sabes te vai acariciar. Pego-te sem demoras e faço-te meu. Reconheço-te na boca e suspiro ao sentir que sentes cada lamber, cada chupar, cada manobrar do membro que me colocas à disposição e que faz as delícias de uma língua gulosa e insaciável num acto preparatório do vaivém que quero sentir, do prazer que sei me vais dar.

True Colours #4

O maior desafio de uma personalidade é conseguir equilibrar todas as suas inúmeras e heterogéneas facetas. A individualidade, o característico, o único, advém de todo um conjunto de factos que numa verdadeira cornucópia se aglomeram. O sexo, o eu sexual é sem dúvida aquele que é menos transparente e visível a olho nu. Porque consciente ou inconscientemente, resguardamos a nossa personalidade sexual até conseguirmos encontrar alguém capaz de nos aceitar em estado puro. Com os nossos gostos, desejos, movimentos, cenários, expressões, secreções, cheiros e vontades. Só aí somos plenos. Capazes de nos despir do manto rendado que encobre o nosso íntimo e que não transparecemos quando caminhamos na rua, quando estamos no trabalho, quando estamos na nossa zona de conforto e onde colocamos a máscara da aparência socialmente ideal.
Pode ser o maior desafio mas é também a maior recompensa. Saber que, venha o que vier, teremos alguém que nos deseja e nos saboreia tal como somos. Despojados de restrições, com vontade de nos dar prazer no matter what. Carpe sexus!


True Colours #19


O corpo que era meu já não me pertence. Nasceu comigo e cuidei dele mas agora é teu. É teu porque dele te apossaste e a minha vontade não te conseguiu fazer frente. É teu porque soubeste moldá-lo ao teu, à tua forma, ao teu jeito e agora nada mais lhe serve. É teu porque vive hipnotizado pelo aroma da tua pele, pelo timbre das tuas palavras, pelo toque das tuas mãos, pelo esboço do teu sorriso, pela cadência do teu olhar, pelo vício do teu sexo. É teu porque o libertei e ele refugiou-se em ti para tão só se completar, para tão só se preencher. O corpo que era meu já não me pertence. Dei-to todo.  

“You must be life for me to the very end," so he writes. "That is the only way in which to sustain my idea of you. Because you have gotten, as you see, tied up with something so vital to me, I do not think I shall ever shake you off. Nor do I wish to. I want you to live more vitally every day, as I am dead. That is why, when I speak of you to others, I am just a bit ashamed. It's hard to talk of one's self so intimately” 

Henry Miller in Tropic of Cancer 

True Colours #24

 O azul e o amarelo com que imaginamos o céu, salpicado do branco das nuvens de algodão, é substituído pelo manto negro da noite. Porque é da noite que se preenche um espírito na cadência dos dias e é na noite que se entregam as almas aos prazeres do corpo. Foi assim com ela, quando se predispôs a conhecer os recantos obscuros das ruas da cidade. Procurou a companhia dos gatos vadios, comungando com eles os pecados da luxúria, da boémia, do desejo. Desceu as escadas que conduziam ao salão escuro. Os olhos demoraram a habituar-se e por instantes sentiu-se cega, tacteando as paredes, apoiando-se na mão que ele lhe apertava, inalando o cheiro a sexo esquecido, a memórias de momentos ali vividos por outros. Aos poucos, a luz violeta foi-lhe iluminando a retina, conseguindo distinguir as formas dos corpos que já ali se encontravam. Esperava o que não sabia esperar mas absorvia cada sombra, cada contorno de semblantes em movimento. Ouvia, sentido hiperbolizado pela necessidade, gemidos, repenicados beijos em fúria, o som da napa negra em contacto com os corpos que se entregavam sem pudor ao sexo de estranhos. Foi conduzida para mais perto do emaranhado de sombras. Distinguiu sujeitos que se alimentavam da energia dos outros. Parecia que o prazer demonstrado por uns, ateava a chama do desejo nos restantes. Procurou quem a acompanhava. Precisava de o sentir perto, colado a si, percorrendo-lhe as curvas, acicatando-lhe a vontade, afastando-lhe a vergonha. A dois primeiro, esqueceram-se dos olhares que se cravavam neles com a volúpia da novidade e entregaram-se ao crescente excitar dos sexos que sentiam já húmidos. Queriam mais. Queriam conhecer de perto os corpos com que partilhavam aquele espaço, queriam partilhar-se, dando-se desprendidos, dando-se puros na vontade, crus nos sentimentos. Aproximaram-se e foram recebidos por mãos ávidas, determinadas. Deixaram-se sugar para o buraco negro do prazer, deixaram-se tocar, deixaram-se possuir possuindo em simultâneo. Perderam-se por entre bafos quentes, cheiros misturados, fluídos sobejantes, línguas perscrutadoras. Olhavam-se de vez em quando, apenas para se certificarem de que estavam bem, de que a vontade de permanecer não se havia desvanecido. Sorriam e continuavam. A certeza de que o manto negro da noite tinha mais brilho que o dia, asseguravam-nos de que queriam aquele prazer. Fumaram um cigarro e, tal como entraram, saíram. Juntos. Da noite para a noite. Satisfeitos.

True Colours #13

Prostro-me perante a solidão que tomou conta de mim. Na multidão ela acompanha-me e não me deixa desamparada. É vizinha da saudade. Porta com porta, saúdam-se pela manhã enquanto correm para o correio na esperança de saber notícias de ti. Ficam-se por um café matinal e a revista e o jornal que perscrutam passivamente para ajudar a passar o tempo e distrair da falta que o teu corpo lhes faz. O tempo aflora sucessivamente, incessantemente, nas incontáveis vezes que olham para o calendário e sentem que falta menos um pedaço de tempo para em ti se misturarem, para em ti se saciarem, para de ti se preencherem e restabelecerem os níveis de prazer e plenitude. Porque sem ti, há sempre algo que falta aqui.

True Colours #15

“I meet you. I remember you. Who are you? You’re destroying me. You’re good for me. How could I know this city was tailor-made for love? How could I know you fit my body like a glove? I like you. How unlikely. I like you. How slow all of a sudden. How sweet. You cannot know. You’re destroying me. You’re good for me. You’re destroying me. You’re good for me. I have time. Please, devour me. Deform me to the point of ugliness. Why not you? Why not you in this city and in this night, so like other cities and other nights you can hardly tell the difference? I beg of you.” 

Marguerite Duras in Hiroshima mon amour

True Colours #3

Desço da nuvem para onde me transportaste, numa viagem a um mundo de onde pura e simplesmente me quero recusar a sair. Trago em mim lembranças, souvenirs de postos de passagem, de locais que percorremos de mão dada e corpos encaixados numa entrega perfeita. Trago em mim o teu sabor...suave, adocicado, quente e absolutamente viciante. 

True Colours #7

Sabem aquela sensação de estar a planar no vazio? Aquele arrepio gostoso na barriga? Aquele sobressalto no coração? Aquele sorriso idiota que fazemos sozinhos quando nos recordamos de alguém? Aquele olhar doce e terno quando passamos em revista momentos especiais? Aquela vontade intrínseca de repetir e repetir e nunca lhe dar fim? Tivesse eu direito a ver um desejo concretizado na vida e pediria que o tempo parasse quando estou nos teus braços. Que as horas esticassem e abarcassem um ano ou dois quiçá. Que o mundo lá fora estagnasse e te-me pudesse dar sem fim à vista. Num abraço lânguido e apertado, numa conexão física e mental tão perfeita, num tocar electrizante, em sussurros imbuídos de cumplicidade, numa entrega sem pudor e repleta de um nós tão desenhado quanto as linhas dos teus lábios. Pudesse eu e morreria neles.

True Colours #1

Há imagens que ao vivo e a cores transcendem o campo da memória. Magnéticas, semi-reais, quase a 4 dimensões. Porque de algum modo, quase impossível, sentimos determinados momentos passados como se fossem presentes. Sentimos as sensações, saboreamos o sabor (o teu, o teu), ouvimos os sons, as palavras, olhamos. Olhamos e queremos perder-nos numa imagem. Num momento. Numa partilha.


True Colours #9

Pergunto-me amiúde como vou, à distância da saudade, conseguir suprir este vício de ti. Como vou conseguir não te sentir, não te degustar, não te dar tudo o que tenho em mim e receber em troca as sensações que me proporcionas entre a saliva e o teu sabor inconfundível. Único.
Pergunto-me amiúde como vou, nessa altura, conseguir não te-me dar inteira, não ser tua. Toda tua. E imagino se algum dia poderemos ser eternos. Um no outro, um para o outro, um com o outro.

True Colours #5


I am bound to you. Your every gesture, your every expression, your every word. I am bond to you... As you move up behind me, kissing me softly, slowly down my arms to my hands. As you apply your lips across my back, around the back of my ears, my neck. As you move your fingers through my entire body, barely touching, but enough to make me shiver, the very edge of your nails over my belly, my ribs. Then, slowly in spirals around my nipples and breasts. As you part my thighs. Long lines of slow tongue tease all the way to the top, then back down again. Each leg, kisses over each calve, and then the slow kiss climb back up again. Right to the top. As you softly kiss across my lips, flick the slightest of tongue teasing over the hood of my clit. As you plunge your tongue deep inside. Taste just how I taste. Swirling and swirling and swirling inside me.

True Colours #29

Podias ser tu e podiam perfeitamente ser as minhas mãos. Podia ser a tua forma, que me seduz e golpeia de prazer, podia ser o meu esforço em te elevar ao caminho do orgasmo. Podia ser o teu e o meu desejo, retratado num click, num momento eternizado de intimidade e cumplicidade, sofreguidão mútua. Podia ser a minha boca, a aproximar-se lentamente, sequiosa do sabor e da textura, do jeito e da grandeza. Podia ser a minha língua, inequívoca nos intentos, gulosa nos movimentos, assoberbada de gemidos e olhos semicerrados. Podias ser tu e podiam ser as minhas mãos, abraçando-te e salivando-te, manobrando-te e desejando-te, querendo-te mais próximo de mim. Podias ser tu e podiam ser as minhas mãos. Podia ser o teu escorrer, podia ser o meu jorrar, podia ser o meu beijo, podia ser o teu espasmo. Podias ser tu e podiam ser as minhas mãos, perdidos ambos na imortalidade, num perfeito, tão perfeito amar.

True Colours #10

Há um brilho reluzente que se reflecte no olhar. Um brilho que se propaga pelo corpo em laivos cintilantes de purpurinas. É o brilho que emana do meu íntimo depois de se ter achado e perdido no teu. São missangas coloridas que se assemelham a pequenos sóis e cambaleiam em carrosséis de lembranças e imagens de dois corpos sofregamente entregues ao prazer de se molharem, de em fúria se introduzirem um no outro, de deslizarem em jorros de puro de-leite, de em satisfação absoluta jazerem inertes, ofegantes e palpitantes. Sorrindo um sorriso que lhes vem da alma, se transforma em cumplicidade escrita e imortalizada a bâton vermelho no espelho que os reflecte.

True Colours #25


Hoje, só por ser hoje, por nenhum motivo específico, por nenhuma razão especial, não tem de existir, mas pode existir. Hoje, só por ser hoje, só porque me apetece, só porque quero. Hoje, só por ser hoje, porque me encontro onde gostaria de me achar, porque sorrio de cara levantada, de coração feliz, de leveza no olhar. Hoje, só por ser hoje, por todos os motivos do mundo, por nenhum em particular. Hoje, só por ser hoje, porque mereço, porque cheguei e quis cá chegar. Hoje, só por ser hoje, porque sou a partilhar, porque me dou e recebo em troca, tanto. Hoje, só por ser hoje, porque sim, porque não?