(E)m estado líquido #32

São dois corpos embrenhados em si. Intercalam-se, entrelaçam-se, abraçam-se, mal se distinguem no emaranhado de sensações em que se movem. Afugentam o mundo que os rodeia, não o precisam, não o querem ali naquele momento. Frágeis, complementam-se um no outro, buscam o que lhes falta. Entregam-se tanto, dão-se tanto, querem-se tanto. Gostariam de ser assim sem fim. Mas o fim chega sempre e é o anunciado. Ela sabe, sente-o na força com que ele a beija, na intensidade com que, investida após investida, o sente entrar e sair de si, no súbito desespero que lhe vê plasmado no rosto. Ele sabe, sente-o na força com que ela lhe crava as mãos nas costas, na intensidade com que, investida após investida, a sente gemer e ofegar, na constrição dos seus músculos que o aconchegam mais dentro de si, no sorrir malandro que lhe vê plasmado no rosto. O fim é o anunciado mas ambos o querem como querem recomeçar e voltar a dar tudo. E ele dá-lhe tudo o que tem, deposita nela o sabor do seu prazer, envolto no prazer escorregadio que também ela sentiu. Secam-se. Secam-se apenas para mais tarde se voltarem a querer e se acharem de novo um no outro querendo o fim sem descurar o meio e antecipando um recomeçar.



(E)m estado líquido #29

Submerjo. Sustenho a respiração na esperança de que assim me consiga manter em ti, no mundo que é nosso, no prazer que me dás, nas ondas do deleite que o teu sabor me provoca. Resguardo-me na liquidez dos momentos a que quando submersos em nós nos entregamos. Emerjo. Apenas o suficiente para renovar o ar que me é vital, para aspirar da realidade o que me permite manter no sonho que somos e permanecer incólume às agressões do outro mundo que odiamos. Submerjo e emerjo. Dia após dia, num movimento orgânico e ensaiado, num cataclismo cego, num vão entra e sai que apesar dos esforços, apenas me mantém à tona d'água. 

(E)m estado líquido #27

De olhos fechados, elas degustavam cada sabor misturado num momento único, num prazer assoberbado e numa entrega de corpos e vontades. Ele, preso no tempo e envergando um sorriso de indelével agrado, imortalizava na memória a beleza de uma partilha que há instantes tinha sido dele também e da qual agora era mero espectador. Sorria porque sentia ainda os pequenos espasmos e o palpitar do coração acelerado ao mesmo tempo que se deliciava com a continuação do seu prazer agora espalhado por elas. Elas que haviam de tudo feito para nada lhe faltar, para tudo lhe oferecer e que em simultâneo se saciavam mutuamente. Elas que a tudo se permitiram, a tudo se entregaram e colheram a recompensa do prazer partilhado, do prazer repartido.

(E)m estado líquido #42


Todos os beijos, todas as carícias, todos os apertos, todas as investidas, todas as trincas, todos os gemidos e ofegares, todos os olhares, todos os roçares, todos os suspiros, todas as palavras sussurradas entre dentes, todas as vontades convergiam agora num só sentido. Olhou-a envergando um sorriso hipnotizado, perdido num mundo de carnais pensamentos, de doces pecados. Tirou antes de acabar. Verteu-se nela como que mostrando-lhe o que a entrega dos seus corpos era capaz de proporcionar, como que dizendo-lhe, olha o que tu provocas em mim. Ela, regozijou de prazer, incapaz de não sorrir face à prova do orgasmo, à prova do prazer agora cabalmente demonstrada, ao culminar do que lhe tinha oferecido sem hesitar. Sentiu-o quente, espraiar-se sobre si, em linhas amorfas, em rasgos de deleite jorrado sem alvo certo, apenas destinos de prazer. Tocou-lhe com os dedos, espalhando-o ainda mais, suavizando-lhe a pele num momento de satisfação. Chegou-os à boca e provou-o. Suspirou. O sabor era o seu, o de sempre, aquele que a havia viciado desde o primeiro momento e sem o qual o seu paladar já não sabia existir.

(E)m estado líquido #39

Anoitecia nas suas pálpebras que, pesadas e ligeiramente entreabertas, procuravam a serenidade do sono. As janelas por onde observava o mundo queriam à força fechar-se, colocando o corpo em ponto morto, numa passividade pacífica. O aconchego dos lençóis que lhe cobriam o corpo parecia enroscar-se nela, entorpecendo-lhe os membros e empurrando-a sorrateiramente para o marasmo da noite. Só que, e com isto é que ela não contava, havia no seu íntimo um crescente querer. Um desejo contido, forçado a manter-se quieto mas que ansiava por emergir. Um sussurro latejante e repetitivo, uma voz que lhe desassossegava a calma, um eco de luxúria que lhe dizia sem cessar: "Toca-te. Sabes que queres. Toca-te. Sabes que queres."
Rogou clemência ao corpo, implorou que só por uma noite pudesse não sucumbir às vontades inexplicáveis, ao saciar implacável que lhe era exigido, ao constante queimar do fogo que lhe toldava os sentidos e a faziam entrar em colisão consigo mesma. "Toca-te. Sabes que queres. Toca-te. Sabes que queres." O corpo teimou em não lhe dar tréguas, incitou-a a querer-se, a amar-se, a perscrutar-se. Decidiu vingar-se. Achou que dando tudo de si, que violentando a volúpia, havia de acalmar. Procurou os lábios, grandes, como que moldados ao tamanho do seu desejo e encontrou-os quentes. A ironia chegava a ser perfeita. Quanto mais se continha mais o seu corpo dava mostras do contrário. Afastou-os, como que abrindo um livro, e encontrou mais uma prova do seu esforço inglório. Molhada. Encontrava-se irremediavelmente molhada. Folheou dedo a dedo, página a página, recitou cada letra do alfabeto, sentindo o coração a querer saltar do peito enquanto soltava um "Ahhhh" que culminava num "Ohhhh" sem nunca esquecer um "Ai". Conhecia tão bem os caprichos do seu corpo, caprichos que inevitavelmente se acabavam por confundir com os seus, que a sequência de gestos e acontecimentos era imbuída da maior eficácia e perfeição. Inspirou o aroma que emanava dos seus poros, provou o seu sabor, gostava de o sentir mesmo sozinha, e num segundo de fugidio acariciar alcançou o prazer do sono. Atingiu o auge do cansaço, caminhou em direcção à noite, adormeceu. Contrariada. Mais uma vez o corpo havia vencido.

Em estado líquido #44

Até há escassos segundos, havia travado uma guerra. Interior, física. Uma guerra cujos oponentes se debelavam seriamente em conseguir alcançar o seu objectivo. De um lado, a contenção, a força, a estratégia, a concentração, a vontade de prolongar no tempo, a luta contra um inexorável destino. Por outro lado, a desconcentração, o animus a querer subjugar-se, a querer baixar a guarda, desistir face à incapacidade de alcançar a eternidade, de bater em retirada ou no mínimo declarar tréguas, deixar-se guiar pelos apelos que se lhe prostravam diante dos olhos e o incitavam a não mais se conter. Uma guerra desonesta, sem honra, perdida à partida mas que ninguém se atrevia a deixar de começar. O corpo e a mente rivalizavam de forma hostil, o primeiro chicoteado por estímulos impossíveis de ignorar, rodeado de apetitosas tentações, inigualáveis sensações, afagos e beijos frenéticos, penetrares húmidos e cavernosos, lamberes lânguidos e acelerados, massajares sedentos e ávidos, chupares impregnados de loucura, abstinentes de razão. A mente fustigada pelo desespero, por uma causa inequivocamente incontornável, por um apressar de vontade, pela luxúria e desejo que se impunham fortes e insanos, numa vassalagem a uma entrega, a um sucumbir. E, de repente, no expoente máximo da querela, um cedeu ao outro, não conseguindo adiar mais a derrota, não conseguindo conter as tropas que avançaram com todas as armas, com os trunfos mais imorais, com os esquemas de guerra menos profícuos. As veias latejantes e o formigueiro instantâneo, o espasmo fugidio e o líquido, a semente, jorrando incontrolável, para fora de si, abandonando o corpo, jazendo no infinito.

(E)m estado líquido #46

Salpicou-a de si. Depois de lhe ter esventrado o corpo, de lhe ter abusado dos seios, de os ter beijado e trincado, de os ter torneado, apalpado, chupado. Depois de lhe ter perfurado a boca, com a língua sedenta e os beijos enlouquecidos pelo desejo. Depois de lhe ter sugado os lábios proeminentes, de lhe ter provado o mel que soltava em lânguidos escorreres, de lhe ter lambido o clitóris excitado e trémulo de espasmos imbuídos de prazer, de lhe ter introduzido os dedos para sentir o calor do seu aconchego. Depois de lhe ter dado a provar o seu membro, engolindo-o gulosa, deslizando-lhe a língua degustadora e perscrutadora, molhando-o da saliva que produzia copiosamente com o apetite voraz que a caracterizava. Depois de lhe ter preenchido a vagina, húmida e esponjosa, dando-lhe as estocadas mais vibrantes, as investidas mais fortes que lhe tocavam no fundo, na sua essência, fazendo-a estremecer a cada pulsante entra e sai. Depois de lhe ter torneado as curvas, puxado-lhe o cabelo para a chegar a si, a comandar e manobrar a seu bel prazer. Salpicou-a de si, num gesto reflectido, antecipado, depositando-lhe para ela ver, para ela sentir na sua pele, a prova quente e cabal do seu prazer, do atingir do expoente máximo, do orgasmo que o corpo dela lhe serviu.

(E)m estado líquido #19

"Make love with the lights on, baby
Tell me what you see
Clear the bed to lie on, darlin'
Make a mess of me"

(The Pierces)

(E)m estado líquido #28


"Our duty is to feel what is great and love what is beautiful - not to accept all the social conventions and the infamies they impose on us."

In Madame Bovary de Gustave Flaubert

(E)m estado líquido #33

 A excitação crescente, os lábios que o circunscreveram, o delinearam em toda a sua extensão, a língua que o torneou, o lambeu, a boca que o engoliu até lhe tocar na garganta, as mãos que o manobraram intensamente a um ritmo sempre guiado pelo desejo de lhe dar o maior prazer. Não se desviou da rota traçada e devolveu-lhe os gemidos que o sentia gemer, também sentia prazer no prazer que lhe oferecia. Demorou-se, em gestos extremados, intrincados, solenes e lânguidos, sorvendo-lhe o sabor e salivando-o à medida que ele se aproximava do culminar. Parou num momento de expectativa, um segundo em que o tempo estagna e em slow motion se espera o desfecho para o qual se preparou. Estava quase. Quase. Mostrou-se disponível para o receber, para o beber, para provar o sabor que lhe antecipava e desejava lhe preenchesse o paladar.

(E)m estado líquido #43

Não se contentava com pouco, o mais e o maior, tinham um íman demasiado intenso para se deixar cair na rotina dos dias, na certeza da passividade. Invariavelmente, escorria desejo, flutuava nas águas do prazer, afogava-se em lagos feitos de corpos e sucos que deles brotavam. O auto-controlo era travão que não conhecia, que não usava, e deixava que o corpo passeasse na senda da vontade sempre que aquele lhe mostrava sinais de excitação, sinais de tesão. Um toque, uma carícia, um olhar e o arrepio era instantâneo, o líquido formava-se-lhe como que antevendo uma fuga, como que antecipando uma entrega. Sorria, tímida, face ao corpo desgovernado que lhe pregava partidas, empurrando-a para o precipício do querer numa queda que desejava lhe tirasse o fôlego, lhe saciasse a carne, lhe alimentasse as entranhas do prazer que nunca achava em demasia. Banhava-se em paixão, sujava-se de sabores, embriagava-se de odores, bebia dos lábios o sumo do desejo, coleccionava imagens em fotossínteses de momentos, em deliciosos instantes de fruição.

(E)m estado líquido #22

Escorre em mim a vontade de te partilhar. Palpitam-me os sentidos na ideia de escorregar pelo teu corpo. Tocando e estimulando aqueles pequenos locais que sei serem os perfeitos para te levar ao máximo prazer. Sei-os porque me conheço bem. E conhecendo-me, conhecer-te-ei também. A fundo. E contigo como pano de fundo. Expectador e explorador.

(E)m estado líquido #36


"The touch was exactly what the touch of a lover's hand should be: familiar, yet exciting as a whispered promise."

(E)m estado líquido #37

Amparamos a queda agarrando-nos ao que temos ao nosso alcance como que escorregando escorregadios da mão que nos costumava segurar na varanda do horizonte do sonho que sonhámos. Agarramo-nos por vezes ao mais singelo gesto, à mais pura das sensações. Só para nos sentirmos com chão, só para não termos a sensação de que dando um passo, caímos no abismo. Congeminamos, mentalmente, cenários onde nos sentimos nós próprios, cenários onde as feridas se saram com a facilidade de uma entrega. Deixamos que os pensamentos fluam e perdemo-nos neles, sacudidos pelo desejo, acordados pela libido que acaba por ser o mais certo em nós como indivíduos. E o nosso corpo manifesta as consequências das imagens em que nos embrenhamos, dos idílicos prazeres que queremos com a força de gigantes. Assim, sem refreio, sem receios. Sorrimos embevecidos, por vezes envergonhados. Envergonha-nos a facilidade com que deixamos o corpo tomar conta de nós, envergonha-nos a falta de controlo. Mas sorrimos face à certeza de que estamos vivos e de que, quanto mais não seja pelo prazer de nos sentirmos, queremos viver e permanecer em terra firme.

(E)m estado líquido #23

As evidências deixam-me sempre sem dúvidas. A mente prepara o terreno para o corpo e o simples facto de te saber meu em breve, desperta em mim o desejo. De cada vez que as imagens de nós perscrutam os meus pensamentos, o meu corpo dá sinais de vida. Primeiro apenas num nervosismo desajeitado. Depois, quando o meu corpo se cola ao teu, escorro de vontade. Um simples beijo, o teu beijo, deixa-me sem chão. Levito no teu querer e de mim solta-se a vontade líquida, escorregadia e viscosa. As dúvidas do efeito que causas em mim desvanecem-se tão depressa quanto o teu calor me aquece também. Sorrio embaraçada quando constato que o estado líquido se instalou em mim e deslizo sobre a cama na tua direcção. Recebes-me a gosto, sorrindo e dizendo apenas que gostas de me saber assim. Para ti. Por ti.

(E)m estado líquido #30

Flui em cascata acariciando a pele, arrepiando-a, tornando-a susceptível a cada toque, a cada beijo deixado pela ponta de uns dedos ensinados e subjugados às curvas do corpo que se lhes oferece. Curvas que conhece de cor, que admira orgulhosamente sempre que despida se mostra disponível para si, aberta e pronta para o receber. Embaciam-se-lhe os olhos, deixam de ver, cegos de prazer, entregues ao calor que húmido e sarcasticamente refrescante lhes escorre do corpo como que antevendo fugidias lágrimas de paixão.

(E)m estado líquido #38

 "As moléculas de um material no estado líquido possuem mais energia do que as moléculas do mesmo material em estado sólido, a uma mesma pressão. Esta maior energia traduz-se em maior liberdade de movimento, que é o que permite ao líquido adaptar a sua forma à forma do recipiente que o contém."

É na intensidade de um querer que se sente a mudança do corpo. Estagnado, em repouso, voluntariamente colocado em pausa, rapidamente se transforma num turbilhão humedecido de sensações. Não precisa de muito. O desejo e a vontade são as premissas. A entrega a conclusão. E o corpo manifesta-se assim, jorrando sinais de desejo em cascatas líquidas de prazer, soltando o suco da vontade, escorregando languidamente de um corpo para o outro numa fusão de sabores únicos, profusos, imprescindíveis ao alcançar do orgasmo mais sublime, ao alcançar da união mais perfeita e do suspiro mais furioso.