Hurt me like you mean it

Diz-se dos loucos que vivem num mundo só deles, que se alheiam da realidade, que se perdem na imaginação, que constroem cenários onde se movem sem correspondência com o lugar onde vivem. Diz-se dos loucos que são sonhadores. Se é loucura sonhar, se é loucura imaginar, estaria condenada ao colete de forças, ao freio da mente. Não lhe importava. Movia-se na edificação de imagens relativizadas que almejava subjectivar. Sentia a compulsão de querer mais assim. Impulsionava-a o desejo de sentir na pele o roçar de dois corpos, três se contasse com ela própria. Queria vê-la em êxtase entregue ao prazer de ser tocada por mãos rudes e delicadas em simultâneo. De ser beijada com a raiva dos amantes, com a paixão dos sedentos, com o desejo dos corpos inebriados de prazer. Imaginava-se vezes sem conta a dedicar-se em pleno, altruísta mas egoísta, dando na expectativa de receber. Sentia na ponta da língua, quase real, o sabor dela, o sabor dele, os sabores deles misturados. Bebia-os com a vontade sôfrega de quem se entrega, movia-se ao ritmo e ao som dos gemeres que lhe ecoavam das gargantas, inebriava-se dos aromas simbióticos que emanavam das peles tocadas em impressões digitais vincadas, em gestos de luxúria, em orgasmos multiplicados, revezados, líquidos e categóricos. Sugeriram lobotomia, acordaram em drogas, administraram placebo. Pensaram que assim lhe acalmariam as entranhas, a devolveriam à razão, lhe findariam as compulsões. Ela sorria. Não haveria quem lhe roubasse o fogo, estava entranhado, agarrado como alcatrão.

Hurt me like you mean it

Agrides-me o corpo, violas-me os sentidos, perfuras-me a alma, constringes-me a liberdade, surrupias-me a voz, dóis-me. Dóis-me no corpo, de uma forma tão física, tão presente, tão sôfrega, crónica, instalada e entranhada nos confins da minha volúpia. É uma dor de prazer, de desejo, de tesão. Sinto-te no vício que te tenho, na vontade intrínseca de te-me dar, de te deixar fazeres de mim o que te aprouver, de me entregar nua e despida, de te deixar percorrer o meu corpo inteiro e subjugá-lo ao teu querer.

“I've solved the mystery: You have to submit silently. Open up, let go. Let anything penetrate you, even the most painful things. Endure. Bear up. That's the magic key! The text comes by itself, and its meaning shakes the soul ... You mustn't let scar tissue form on your wounds; you have to keep ripping them open in order to turn your insides into a marvelous instrument that is capable of anything. All this has its price.”

Klaus Kinski 

Hurt me like you mean it


"Be carefull," she instructed. "Don't wrinkle my clothes."
I took them off with all the precaution in the world, studying each thing she wore as if it were a precious, unique object, kissing with devotion every centimeter of skin that came into view, breathing in the soft, lightly perfumed aura that emanated from her body. Now she had a small, almost invisible scar near her groin because her appendix had been removed, and her pubis had even less hair than before. I felt desire, emotion, tenderness as I kissed her insteps, her fragrant underarms, the suggestion of little bones in her spine, and her motionless buttocks, as delicate to the touch as velvet. I kissed her small breasts at length mad with happiness.
"You haven't forgotten what I like, good boy," she finally whispered in my ear.
And, without waiting for my reply, she turned on her back, spreading her legs to make a place for my head as she covered her eyes with her right arm. I felt her begin to move farther and farther from me, the Russel Hotel, London, in order to concentrate totally, with an intensity I've never seen in any other woman, on the solitary, personal, egotistical pleasure my lips had learned to give her. Licking, sucking, kissing, nibbling her small sex, I felt her grow wet and vibrate. It took her a long time to finish. But how delicious and exciting it was to feel her purring, moving, rocking, submerged in the vertigo of desire, until at last a long wail shook her body from head to toe. "Now, now," she whispered in a choked voice. I entered her easily and embraced her with so much strength that she came out of the inertia in which the orgasm had left her. She groaned, twisting, trying to slip out from under my body, complaining, "you're crushing me."
With my mouth pressed against hers, I pleaded, "For once in your life, tell me you love me, bad girl. Even if it isn't true, say it. I want to know how it sounds, just once."

in The Bad Girl by Mario Vargas Llosa

Hurt me like you mean it

Colocou-se à disposição. Pronta para ser usada e fruída sem ver o seu agressor, sem lhe poder antever os movimentos, sem lhe traçar o perfil, sem lhe adivinhar as vontades. Desprovida do sentido da visão, a sua posição de submissão denotava uma certa fragilidade mas o seu corpo demonstrava o contrário. De queixo levantado e de peito firme, estava preparada para receber o que viesse. Manietada, a supremacia do seu par era evidente mas, ainda assim, ela não baixava a guarda. Sabia que, mesmo subjugada, o prazer seria o único objectivo a levar a cabo. Sabia que, privada de liberdade de movimentos e da possibilidade de antecipação, os restantes sentidos se lhe potenciariam automaticamente e o desejo surgiria paulatinamente num nervosismo concomitante ao prazer. Ouviu, os passos a aproximarem-se lentamente. Sentiu uma língua roçar-lhe o lóbulo da orelha, deixando-lhe uma respiração profunda e rouca, pairando-lhe ao ouvido. Estremeceu, de receio e de desejo, inspirou e expirou profundamente. Sentiu uma mão, suave e pesada, percorrer-lhe os seios, traçando círculos imaginários e arrepios díspares, dirigindo-se sempre para baixo, pelo ventre fora, encontrando-a temerosa mas ávida. Enterrou-se-lhe no cume provocando um contorcer instantâneo e um gemido descontrolado, um escorrer imediato, um rogar sem pedir, um implorar abstido de palavras, um autorizar a tudo no silêncio da boca, apenas manifestado no ruído do corpo que falava por si só. Deixou-se levar, ciente de que o prazer era soberano e o orgasmo exponenciado pelos sentidos sobrantes. Gozou.