Heart Beat

Receamos o vazio. Receamos a falta abrupta, o sofrimento por privação. Receamos aquele momento em que por força do destino, da fatalidade a que inexoravelmente nos entregamos, nos vejamos alheados do que  nos faz sentir plenos. Procuramos sinais de certeza que mais não são que incoerentes dúvidas, rogamos que, a ser verdade, o golpe seja desferido de uma só vez para que o sofrimento se possa confinar a um adormecer para a escuridão e não uma tortuosa viagem penando e agonizando. É uma questão de orgulho também. Por vezes estamos de olhos abertos e não vemos a verdade porque a preferimos embelezada, a preferimos consonante ao que idealizámos. E recostamos o ombro na almofada e sonhamos cor-de-rosa. Vemos o passado, mesmo o recente, pelos olhos de um apaixonado, envergando a lupa de um míope que só assim encontra o X que marca o local onde vai assinar o contrato do destino, onde vai repousar o lacre cuidadosamente queimado e deformado pelo sinete. Vemos o passado e sentimo-lo presente, desejamo-lo, enfim. Sentimos, como se estivesse mesmo ali, o corpo que se entrelaçou em nós, o bafo quente que sentimos na testa proferindo palavras doces enquanto encostamos a cabeça no seu peito. Sentimos, como se estivesse mesmo ali, o deslizar das mãos que nos percorreram as curvas, conhecedoras e aventureiras, o abraço tão apertado que se assemelha a uma verdadeira fusão de quereres. Sentimos, como se estivesse mesmo ali, o preencher do nosso corpo, o entrar e sair que nos surrupia a realidade, evocando o mais animalesco sucumbir, sorrindo face à entrega despudorada, à malícia do desejo. Sentimos, como se estivesse mesmo ali, a vontade de nos deixarmos levar pelo prazer, vendo espelhado nos olhos o rosto que nos hipnotiza e nos sorri agradado ao ver o nosso rosto de prazer, ao nos ver saciados. Recostamos o ombro na almofada e entregamo-nos às reminiscências do que foi e do que queremos seja amanhã de manhã ao acordar. Somos invadidos por suores frios, alucinações, apertos inesperados no peito, tremores descontrolados, respirações descompassadas. Entramos em ressaca.

Heart Beat

"You're in my veins, you fuck." 
(Kate Moss dixit)

Corria-lhe no sangue o fervor da vontade. Era quente, fluído, frenético. Bombeava-lhe as artérias incessantemente, num ritmo de atrozes desejos conduzindo-o vezes e vezes sem conta na direção do coração onde em vez de parar, continuava a viagem num circuito fechado mas de rápidas batidas e palpitações desconcertantes, curvas sinuosas e movimentos de uma destreza inconfundível. Sentia o calor invadir-lhe o entremeio das pernas, espraiar-se-lhe pelo corpo num formigueiro de sensações prenhes de excitação. Era o sangue, nervoso, a tocar todos os seus recantos, a invadir-lhe todos os pontos sinápticos e a dar-lhe o comando para se deixar levar na senda do prazer. Tinha vontade de o sentir, mesmo assim. De o ver desaparecer por completo dentro de si, enquanto o tocava para sentir na ponta dos dedos o entra e sai em toda a sua extensão, para sentir a textura do que lhe preenchia o corpo e lhe saciava a fome e o querer. Tinha vontade de foder. Só foder. De impregnar o corpo de luxúria e provocação, de lhe dar satisfação, de delirar em orgasmos e sucumbir ao prazer de se saciar, de sossegar o desassossego, de acalmar as arritmias provocadas pela loucura do cavalgar a trote do sangue que fervia e queimava de tesão. 

Heart Beat

Das batidas compassadas e espaçadas num ritmo suave e cadenciado, retiramos a sensação de um coração saudável, funcional e mecânico. Aparentemente, nada lhe retira a calma, nada o faz constringir, ficar apertado. Mas, acontece sem sequer darmos por isso, o fogo lento em que ardemos e nos mantemos planando pelo mundo, é interrompido por um ruído de fundo. Assemelha-se a um comboio que se ouve ao fundo, cuja destino desconhecemos mas sabemos que está a chegar. Somos apanhados desprevenidos, ou quiçá, estamos de prevenção mas ingénuos, face à sonolência em que nos encontramos, baixamos momentaneamente a guarda e somos tomados de assalto. E o compasso ganha outro ritmo, o batuque acelera, o calor preenche-nos as veias, o sangue agora mais fluído atravessa-nos o corpo, passa por ele e torna a bombear. Sentimos um sopro de vida, um voltar a viver depois de um estado de quase-morte, uma inspiração desesperada de tanto se querer voltar a respirar. Curiosamente, depois de voltar à vida, depois de moribundo, de vez em quando ainda se esquece de bater. Quando os olhos vêm o objecto de cobiça, quando no arrepio da paixão se sente o toque das mãos que se enlaçam nas nossas, quando em sussurros se reconhece a voz rouca e hipnotizante que nos ecoa no peito, quando os lábios que nos beijam chegam ao fundo da alma, quando a língua que nos humedece nos enleia nos fios do desejo, quando a respiração se transforma em gritos em uníssono, quando o sabor da entrega nos toca nevralgicamente, quando a pele se arrepia num reflexo de carícias, quando bafejados pelo aroma do desejo, sucumbimos ao orgasmo mais pernicioso mas também mais esperado. E, do fundo do túnel, vemos finalmente o comboio que adivinhávamos. Acelerado, rápido, com pressa de chegar. Tal como o coração que deixámos assaltar.

Heart Beat

 "The heaviest of burdens crushes us, we sink beneath it, it pins us to the ground. But in love poetry of every age, the woman longs to be weighed down by the man's body.The heaviest of burdens is therefore simultaneously an image of life's most intense fulfillment. The heavier the burden, the closer our lives come to the earth, the more real and truthful they become. Conversely, the absolute absence of burden causes man to be lighter than air, to soar into heights, take leave of the earth and his earthly being, and become only half real, his movements as free as they are insignificant. What then shall we choose? Weight or lightness?"

 In The Unbearable Lightness of Being by Milan Kundera


Caminhamos curvados, carregando nos ombros o peso de uma vida de dissabores, de escolhas trémulas, de rotinas esmagadoras, de sentimentos fechados a cadeado, de vontades reprimidas, de identidades escondidas. Caminhamos com o sentimento de contentamento, de resignação, numa apatia ridícula, numa omissão de auxílio ao nosso próprio ser. Deixamo-lo enterrar-se em areias movediças, esquecemo-nos de o cuidar, sobrevivemos. Só que, acontece sempre sem darmos conta, um dia, nas escadas da vida, provamos um beijo com sabor a chuva e o peso avassalador transforma-se de imediato numa leveza arrebatadora. Caminhamos nas nuvens, de sorriso estampado no rosto, sonhamos acordados, desejamos com todos os poros da nossa pele. Entregamos a chave de um coração que até ali cumpria apenas as suas obrigações e passamos a depositar nele a esperança de palpitar até à exaustão, de um tudo ou nada. Soltamos os sentimentos enclausurados, perdemo-nos num corpo que contém a alma mais bonita, a alma que nos completa, que nos faz sentir únicos, que se encaixa em nós como duas mãos entrelaçadas a passear na rua. Construímos um mundo privado, um mundo que mais ninguém conhece, somos felizes lá. Viciamo-nos nas sensações que aquela voz nos provoca, das palavras ora intensas, ora doces. Viciamo-nos no rosto distraído que pensa em voz alta e nos sorri quando nos surpreende a observá-lo. Viciamo-nos no aroma característico, ímpar, que emana da pele que nos abraça, que nos envolve e nos cuida. Viciamo-nos no toque de umas mãos irrequietas que tanto nos serenam como nos incendeiam. Viciamo-nos no olhar cansado e dormente, terno e doce, enfurecido e fogoso. Viciamo-nos no sexo que nos enlouquece, na língua que nos devora, nas investidas audazes e certeiras, nos orgasmos partilhados, no abafar dos gemidos, no degustar do corpo que amamos sentir colado ao nosso, na partilha, na cumplicidade. Entramos num caminho sem retorno. Apaixonamo-nos.